sábado, 16 de abril de 2011

O jardim

E um dia Deus visitou-me e disse assim:
Serás como um jardim.
Demasiadamente não regarei,
Mas também não deixarei secar.
E, quando maduro, florescerá
E verá que, infelizmente, nem todas as flores são rosas.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Infância

Passando despercebido por uma rua desconhecida,
Vi um grupo de crianças que brincava sob a luz fraca dos postes.
E alegravam-se com as poucas coisas que tinham,
E com as amizades forjadas a cada sorriso.

E eu me perguntava se sabiam o quanto a vida delas mudaria.
Se sabiam o quanto descobririam sobre o mundo e sobre si mesmas,
Sobre o que realmente representam, sobre o que são, sua essência.
Se mergulhariam profundamente em si mesmas e descobririam a vida.

Me perguntava, até, se chegariam a descobrir tudo isso.
Em uma oração silenciosa, pedi que sim.
Porque algumas não têm a chance de descobrir-se.
É uma realidade à qual eu gostaria de manter os olhos fechados.

Em memória daqueles que morreram no dia de hoje.

Barbacena, 07/04/2011

quarta-feira, 9 de março de 2011

Aquele Velho Navio

Tomei um navio rumo ao Velho Mundo,
Embriaguei-me em tempestades.
Enquanto, à sombra da maldade,
As ondas do mar traziam sua voz
De um oceano distante, profundo.

Grita!
E com unhas roídas rasga a própria pele.
Sangra por dentro quando houve aquelas histórias.
Porque não sabe por onde foi aquele
Que te roubou todo ouro, mérito e glórias.

Com o tempo eles esquecem,
Com o tempo são esquecidos.
E adormecem tranquilamente no oceano profundo.
Esperando o despertar
Que, à superfície, de volta os trará.

E você estava entre eles.
Seus olhos vidrados penetraram em mim.
Não acreditavam no que viam refletidos nos meus.
Desesperados, seus lábios tocaram meu rosto.
Imploravam que fosse mentira, triste desgosto.

Naufraguei.

Perdi-me em devaneios.
Absorto, estremeci.
Senti-me sujo, indigno.
Uma alma doentia perdida
Em uma praia vazia.

Com o passar do tempo,
Fui aprendendo a estar naquele lugar.
Onde nem vivo, nem as ondas vem me buscar.
Ainda sim, voltava todos os dias,
Esperando te encontrar lá.

Eu sei que dizem que são apenas
Rostos na superfície do mar,
Todos mortos.
Mas a dança da morte,
A dança da morte é infinita.

Agradecimentos: aos amigos Gabriel Lazzari e Marcus Vieira, que contribuíram, ainda que sem saber, com idéias e até mesmo versos prontos. Sem os quais a poesia nunca teria atingido a dimensão que atingiu dentro de mim mesmo. E a você, meu amor, sempre a você.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Oh, shit

Eu não sei como vai ser o amanhã.
E teria medo de dizer, se soubesse.
Diga e então será real.
Diga e então será exatamente do jeito que você disse.
Quando se fala muita "merda"  é preciso ter cuidado.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

São folhas em branco que vão dizer o que você quer ouvir

Me incomodam esses "quases"
A quase alegria,
O quase amor.
E  também a quase tristeza,
A quase solidão.
Porque quase não é o bastante.
O quase ser, quase perder-se, quase tornar-se.
É tudo que deveria ter sido mais não foi.
É o medo.
É a imperfeição.
É silêncio.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Dai-me, Senhor meu Deus, o que Vos resta;
Aquilo que ninguém Vos pede.
Não Vos peço o repouso nem a tranqüilidade,
Nem da alma nem do corpo.
Não Vos peço a riqueza nem o êxito nem a saúde;

Tantos Vos pedem isso, meu Deus,
Que já não Vos deve sobrar para dar.
Dai-me, Senhor, o que Vos resta,
Dai-me aquilo que todos recusam.
Quero a insegurança e a inquietação,

Quero a luta e a tormenta.
Dai-me isso, meu Deus, definitivamente;
Dai-me a certeza de que esta
Será a minha parte para sempre,
Porque nem sempre terei a coragem de Vo-la pedir.

Dai-me, Senhor, o que Vos resta,
Dai-me aquilo que os outros não querem;
Mas dai-me, também, a coragem
E a força e a fé.