Me incomodam esses "quases"
A quase alegria,
O quase amor.
E também a quase tristeza,
A quase solidão.
Porque quase não é o bastante.
O quase ser, quase perder-se, quase tornar-se.
É tudo que deveria ter sido mais não foi.
É o medo.
É a imperfeição.
É silêncio.
Um elefante incomoda muita gente. Um misantropo, se pudesse, incomodaria a humanidade inteira. Aqui é o lugar que a gente dissolve isso.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
domingo, 9 de janeiro de 2011
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Dai-me, Senhor meu Deus, o que Vos resta;
Aquilo que ninguém Vos pede.
Não Vos peço o repouso nem a tranqüilidade,
Nem da alma nem do corpo.
Não Vos peço a riqueza nem o êxito nem a saúde;
Tantos Vos pedem isso, meu Deus,
Que já não Vos deve sobrar para dar.
Dai-me, Senhor, o que Vos resta,
Dai-me aquilo que todos recusam.
Quero a insegurança e a inquietação,
Quero a luta e a tormenta.
Dai-me isso, meu Deus, definitivamente;
Dai-me a certeza de que esta
Será a minha parte para sempre,
Porque nem sempre terei a coragem de Vo-la pedir.
Dai-me, Senhor, o que Vos resta,
Dai-me aquilo que os outros não querem;
Mas dai-me, também, a coragem
E a força e a fé.
Aquilo que ninguém Vos pede.
Não Vos peço o repouso nem a tranqüilidade,
Nem da alma nem do corpo.
Não Vos peço a riqueza nem o êxito nem a saúde;
Tantos Vos pedem isso, meu Deus,
Que já não Vos deve sobrar para dar.
Dai-me, Senhor, o que Vos resta,
Dai-me aquilo que todos recusam.
Quero a insegurança e a inquietação,
Quero a luta e a tormenta.
Dai-me isso, meu Deus, definitivamente;
Dai-me a certeza de que esta
Será a minha parte para sempre,
Porque nem sempre terei a coragem de Vo-la pedir.
Dai-me, Senhor, o que Vos resta,
Dai-me aquilo que os outros não querem;
Mas dai-me, também, a coragem
E a força e a fé.
domingo, 26 de dezembro de 2010
domingo, 12 de dezembro de 2010
Mãe, acorda, eu tô na TV,
Queria ter ido aí te ver.
Mas o carro quebrou no meio do caminho
Agora eu tô aqui sozinho
E a vida desandou
Enquanto não sei mais pra onde tô indo,
ela já chegou.
E, por Deus, todas essas pessoas que continuam vindo!
Se eu te contar que há muito não vejo ninguém sorrindo,
O que você vai me dizer?
Queria ter ido aí te ver.
Mas o carro quebrou no meio do caminho
Agora eu tô aqui sozinho
E a vida desandou
Enquanto não sei mais pra onde tô indo,
ela já chegou.
E, por Deus, todas essas pessoas que continuam vindo!
Se eu te contar que há muito não vejo ninguém sorrindo,
O que você vai me dizer?
sábado, 23 de outubro de 2010
Cartas A Um Jovem Poeta - Décima Carta
Paris, dia seguinte ao Natal de 1908
Deve imaginar, caro Sr. Kappus, como fique alegre em receber esta sua bela carta. As notícias que me dá, reais e concretas desta vez, parecem-me boas; sim, quanto mais as examino, tanto mais as acho efetivamente boas. Queria dizer-lhe isto pela véspera de Natal; mas, além do meu trabalho tão variado e contínuo êste inverno, a velha festa chegou tão depressa que mal me ficou tempo de tomar as medidas indispensáveis, e tive de reduzir minha correspondência.
Mas pensei muito no senhor durante êsses dias de festa, imaginando como deve estar calmo lá na sua fortaleza solitária, no meio dos montes vazios, sôbre os quais se abatem os grandes ventos do Sul com tamanha fôrça como se os quisessem devorar.
Imenso deve ser o silêncio em que há lugar para tais ruídos e movimentos. Pensando que a tudo isto se acrescenta ainda a presença do mar longínquo, talvez como o tom mais íntimo daquela sinfonia pré-histórica, não se pode senão desejar-lhe que, cheio de confiança e paciência, deixe trabalhar em seu aperfeiçoamento a grandiosa solidão que não mais poderá ser riscada de sua vida. Em tudo o que o senhor tiver de viver e fazer, ela agirá ininterrupta e silenciosamente como uma influência anônima, assim como o sangue dos antepassados se movimento em nós constantemente, misturando-se ao nosso e formando com êle a coisa única e irrepetível que somo em cada curva de nossa vida.
Sim, alegro-me de que leve essa existência firme e concreta, com essa patente, êsse uniforme êsse serviço com tudo o que tem de tangível e limitado. Em tais ambientes, no meio de uma guarnição igualmente isolada e pouco numerosa, êle deve assumir um ar de grave necessidade. Acima do que a profissão militar tem de brincadeira e vadiação, êle deve significar uma aplicação vigilante que não só permite, como até educa a atenção independente. Encontrarmo-nos entre circunstâncias que operam em nós, que nos colocam, de vez em quando, diante das grandes coisas da natureza, eis tudo o que se faz mister.
A arte também é apenas uma maneira de viver. A gente pode preparar-se para ela sem o saber, vivendo de qualquer forma. Em tudo o que é verdadeiro, está-se mais perto dela do que nas falsas profissões meio-artísticas. Estas, dando a ilusão de uma proximidade da arte, pràticamente negam e atacam a existência de qualquer arte. Assim o faz, mais ou menos, todo o jornalismo, quase tôda a crítica e três quartos daquilo que se chama e se quer chamar de literatura. Estou contente, numa palavra, de ver que o senhor resistiu à tentação de cair nelas e está vivendo no meio de uma áspera realidade, solitário e corajoso. Possa o ano que vem mantê-lo e confirmá-lo nela. Sempre seu
Rainer Maria Rilke
Deve imaginar, caro Sr. Kappus, como fique alegre em receber esta sua bela carta. As notícias que me dá, reais e concretas desta vez, parecem-me boas; sim, quanto mais as examino, tanto mais as acho efetivamente boas. Queria dizer-lhe isto pela véspera de Natal; mas, além do meu trabalho tão variado e contínuo êste inverno, a velha festa chegou tão depressa que mal me ficou tempo de tomar as medidas indispensáveis, e tive de reduzir minha correspondência.
Mas pensei muito no senhor durante êsses dias de festa, imaginando como deve estar calmo lá na sua fortaleza solitária, no meio dos montes vazios, sôbre os quais se abatem os grandes ventos do Sul com tamanha fôrça como se os quisessem devorar.
Imenso deve ser o silêncio em que há lugar para tais ruídos e movimentos. Pensando que a tudo isto se acrescenta ainda a presença do mar longínquo, talvez como o tom mais íntimo daquela sinfonia pré-histórica, não se pode senão desejar-lhe que, cheio de confiança e paciência, deixe trabalhar em seu aperfeiçoamento a grandiosa solidão que não mais poderá ser riscada de sua vida. Em tudo o que o senhor tiver de viver e fazer, ela agirá ininterrupta e silenciosamente como uma influência anônima, assim como o sangue dos antepassados se movimento em nós constantemente, misturando-se ao nosso e formando com êle a coisa única e irrepetível que somo em cada curva de nossa vida.
Sim, alegro-me de que leve essa existência firme e concreta, com essa patente, êsse uniforme êsse serviço com tudo o que tem de tangível e limitado. Em tais ambientes, no meio de uma guarnição igualmente isolada e pouco numerosa, êle deve assumir um ar de grave necessidade. Acima do que a profissão militar tem de brincadeira e vadiação, êle deve significar uma aplicação vigilante que não só permite, como até educa a atenção independente. Encontrarmo-nos entre circunstâncias que operam em nós, que nos colocam, de vez em quando, diante das grandes coisas da natureza, eis tudo o que se faz mister.
A arte também é apenas uma maneira de viver. A gente pode preparar-se para ela sem o saber, vivendo de qualquer forma. Em tudo o que é verdadeiro, está-se mais perto dela do que nas falsas profissões meio-artísticas. Estas, dando a ilusão de uma proximidade da arte, pràticamente negam e atacam a existência de qualquer arte. Assim o faz, mais ou menos, todo o jornalismo, quase tôda a crítica e três quartos daquilo que se chama e se quer chamar de literatura. Estou contente, numa palavra, de ver que o senhor resistiu à tentação de cair nelas e está vivendo no meio de uma áspera realidade, solitário e corajoso. Possa o ano que vem mantê-lo e confirmá-lo nela. Sempre seu
Rainer Maria Rilke
Cartas A Um Jovem Poeta - Nona Carta
Furuborg, Jonsered, Suécia,
4 de novembro de 1904.
Meu caro Sr. Kappus,
Nesse período, que se passou sem uma carta, eu estava em parte viajando, em parte tão ocupado que não me foi possível escrever. Ainda hoje me é difícil fazê-lo, pois tive de escrever tantas cartas que já tenho as mãos cansadas. Se o pudesse ditar, dir-lhe-ia muita coisa; não o podendo, peço-lhe que aceita estas poucas palavras em resposta à sua longa carta.
Penso freqüentemente no senhor e com tão concentrados votos que isso, finalmente, deveria ajudá-lo de uma maneira ou de outra. Duvido muitas vêzes que minhas cartas possam ser realmente um auxílio. Não me diga que o são. Aceite-as tranqüilamente, sem agradecimentos: deixe-nos aguardar o que vier.
Talvez de nada sirva que eu analise uma por uma as suas palavras agora. O que poderia dizer acêrca de seu pendor para a dúvida ou de sua incapacidade de harmonizar a vida externa e a interna, ou tudo aquilo que o oprime ainda, seria sempre a repetição do que já disse: desejo que encontre bastante paciência em si para suportar e bastante simplicidade para crer; que confie cada vez mais no que é difícil, entre outras coisas na sua solidão. No restante, deixe a vida acontecer. Acredite-me: a vida tem razão em todos os casos.
Quanto aos sentimentos: são puros todos aquêles que o senhor concentra e guarda; impuros os que agarram só um lado de seu ser e o deformam. Tudo o que pode pensar a respeito de sua infância é bom. Tudo o que o torna algo mais do que foi até agora em suas melhores horas é bom. Tôda intensificação é boa, quando está em todo o seu sangue, quando não é turva ebriedade, mas alegria cujo fundo se vê. Compreende o que quero dizer?
Sua dúvida pode tornar-se uma qualidade se o senhor a educar. Deve-se transformar em saber, em crítica. Cada vez que ela lhe quiser estragar uma coisa, pergunte-lhe por que aquilo é feio, Peça-lhe provas, examine-a; talvez a ache indecisa e embaraçada, talvez revoltada. Mas não ceda, exija argumentos. Ponha-se a agir assim, atenta e conseqüentemente, cada vez e dia virá em que, de destruidora, ela se tornará sua melhor colaboradora, talvez a mais sábia de quantas cooperam na construção de sua vida.
Eis tudo o que lhe posso dizer hoje, caro Sr. Kappus. Mando-lhe, porém, ao mesmo tempo, uma separata com uma pequena poesia publicada agora no Deutsche Arbeit de Praga. Aí continuo a falar-lhe da vida e da morte, a dizer-lhe que ambas são grandes e esplêndidas.
Seu
Rainer Maria Rilke
4 de novembro de 1904.
Meu caro Sr. Kappus,
Nesse período, que se passou sem uma carta, eu estava em parte viajando, em parte tão ocupado que não me foi possível escrever. Ainda hoje me é difícil fazê-lo, pois tive de escrever tantas cartas que já tenho as mãos cansadas. Se o pudesse ditar, dir-lhe-ia muita coisa; não o podendo, peço-lhe que aceita estas poucas palavras em resposta à sua longa carta.
Penso freqüentemente no senhor e com tão concentrados votos que isso, finalmente, deveria ajudá-lo de uma maneira ou de outra. Duvido muitas vêzes que minhas cartas possam ser realmente um auxílio. Não me diga que o são. Aceite-as tranqüilamente, sem agradecimentos: deixe-nos aguardar o que vier.
Talvez de nada sirva que eu analise uma por uma as suas palavras agora. O que poderia dizer acêrca de seu pendor para a dúvida ou de sua incapacidade de harmonizar a vida externa e a interna, ou tudo aquilo que o oprime ainda, seria sempre a repetição do que já disse: desejo que encontre bastante paciência em si para suportar e bastante simplicidade para crer; que confie cada vez mais no que é difícil, entre outras coisas na sua solidão. No restante, deixe a vida acontecer. Acredite-me: a vida tem razão em todos os casos.
Quanto aos sentimentos: são puros todos aquêles que o senhor concentra e guarda; impuros os que agarram só um lado de seu ser e o deformam. Tudo o que pode pensar a respeito de sua infância é bom. Tudo o que o torna algo mais do que foi até agora em suas melhores horas é bom. Tôda intensificação é boa, quando está em todo o seu sangue, quando não é turva ebriedade, mas alegria cujo fundo se vê. Compreende o que quero dizer?
Sua dúvida pode tornar-se uma qualidade se o senhor a educar. Deve-se transformar em saber, em crítica. Cada vez que ela lhe quiser estragar uma coisa, pergunte-lhe por que aquilo é feio, Peça-lhe provas, examine-a; talvez a ache indecisa e embaraçada, talvez revoltada. Mas não ceda, exija argumentos. Ponha-se a agir assim, atenta e conseqüentemente, cada vez e dia virá em que, de destruidora, ela se tornará sua melhor colaboradora, talvez a mais sábia de quantas cooperam na construção de sua vida.
Eis tudo o que lhe posso dizer hoje, caro Sr. Kappus. Mando-lhe, porém, ao mesmo tempo, uma separata com uma pequena poesia publicada agora no Deutsche Arbeit de Praga. Aí continuo a falar-lhe da vida e da morte, a dizer-lhe que ambas são grandes e esplêndidas.
Seu
Rainer Maria Rilke
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